FRAGMENTOS DA INFÂNCIA
Por Marlova Mendes
Minha riqueza imaterial são as
lembranças da infância que, agora, surgem renovadas pois, de tênues, se
transformaram em algo concreto, que se amplia à medida que reflito sobre elas.
Pergunto qual o significado de
sentir tanta satisfação com essas lembranças, por que esse sentimento se
restringe a este tempo, ao tempo da criança?
As brincadeiras próprias das
meninas, o fogãozinho de metal, panelinhas cheias de grama, a corrida na horta
de milhos, as espigas que se transformavam em lindas bonecas −
ruivas, loiras e morenas − com dezenas de dentes a me sorrir.
Apreciava brincadeiras de estátua
−
braços abertos, olhar para o céu, mãos arqueadas, como a dançar com o tempo − resplandecendo
o desejo de assim permanecer eternamente.
Lembro que, pessoas humildes que
éramos, não tínhamos água encanada e utilizávamos para sustento da casa um
pequeno poço, carinhosamente chamado de “pocinho”, o qual era habitado por
algumas lombrigas, admiradas por nós, na nossa ingenuidade.
De minha mãe, tênues lembranças,
como se sua breve passagem fosse uma brisa que acariciou o meu rosto e deixou
saudades... sem tempo de criar raízes, de se amoldar na minha vida, de ser
concreta.
Não lembro de seu olhar, tampouco
de um abraço ou um carinho. Talvez demonstrasse isso de outras formas como,
quando, ao amassar o pão, me dava um pedaço de massa para fazer pombinhas com
olhinhos de feijão, que eram assadas junto com o pão da família. Vagamente a vejo recebendo amigos com um
largo sorriso, alegres noites com jogos de carta, farta comilança, júbilo
verdadeiro da comunhão.
Cada lembrança da infância faz
parte da tessitura que moldou e molda a minha vida, sem interrupções. Uma
lembrança se liga a outra e as resgato para legitimar a minha existência!
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