ESCRITA E VIDA

Por Carliza Timm



Iniciamos a Oficina de Escrita com um grupo com muitas afinidades. Quando um grupo se forma, não é mera coincidência.

Primeira aula: falamos das nossas inseguranças... no trabalho, nos relacionamentos, na escrita. Queremos ser algo, ser alguém. Essa tentativa de vir a ser algo nos limita, nos exige, nos bloqueia. Queremos manter uma imagem, queremos ser elogiados, não ser criticados. Os textos expressaram a busca pelo sentido da vida, os medos, os bloqueios, o enclausuramento, o medo de ser quem se é. Alguns buscaram refúgio na natureza, outros na infância. Outros expressaram o medo da perda dos entes queridos, o medo da solidão, o medo de enfrentar novos desafios na profissão. 

Falamos do esboço, início do processo de escrita. Assim como a vida, não sabemos tudo desde o início, estamos em processo. Esboçar é se abrir para deixar a vida jorrar, deixar a vida fluir, pois não há certezas, não há garantias. Quando iniciamos algo, temos que ter abertura para experimentar, para vivenciar o desconhecido. Neste dia já experimentamos a escrita automática, a escrita rápida que são técnicas para desbloqueio da escrita. Deixar as palavras jorrarem das mãos, sem expectativas, sem medos.  

Segunda aula: questionamos a motivação para realizar nossas ações. Precisamos sair do autocentramento e pensar nos outros. Incluir os outros nas nossas metas de vida. Por que fazemos o que fazemos? Para onde estamos indo?

O processo de escrita é como a vida. É com a prática que vamos nos aperfeiçoando, vamos nos melhorando. Não há melhoria sem prática, sem errarmos para aprender. É preciso ensaiar, esboçar, revisar, editar. Não dá para misturar a criação com a edição, ou seja, não dá para misturar o processo criativo com a correção. Para criar é preciso se entregar, deixar fluir. Se ficarmos presos às regras, não seremos livres, não haverá entrega. O texto deve resultar num equilíbrio entre relaxamento/criação e tensão/edição.  

Os textos desse dia mostraram a mágica que acontece quando nos soltamos para escrever. Descobrimos outros eus, partes de nós desconhecidas. Alguém disse: “Não fui eu quem escreveu isso”. A surpresa com a própria escrita e com o próprio eu. A escrita é reflexo do eu, não só no conteúdo, mas na forma. A confusão ou a clareza do texto refletem o eu, seu espaço interno.

Terceira aula: um mergulho na infância, utilizando como apoio a obra “O Pequeno Príncipe”. A infância doce, criativa, mas também sofrida. A origem dos nossos afetos, dos nossos medos, mas, paradoxalmente, da nossa segurança. Buscamos na infância potenciais perdidos, pontes para encontrar novas possibilidades na vida atual. O que deixamos para trás, o que esquecemos?   

Cada aula é tecida a partir do que vai surgindo, do que os textos vão revelando e pedindo. São pedidos, são lições, são vidas que vão sendo mostradas através dos textos. Este blog é apenas a ponta do iceberg. Todo restante é o que foi vivenciado em cada aula e não pode ser expresso na totalidade. Vai ficar nas memórias, no coração de cada um.


Esperamos que os leitores apreciem os textos e que possam imaginar o processo por trás deles. 

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