LINHAS, AGULHAS E TECIDOS
Por Marlova Mendes
Desde que me lembro tenho uma relação afetuosa com linhas, agulhas e
tecidos e me pergunto desde quando nasceu essa relação e o que ela representa
para mim.
Viver é estar rodeado de objetos, desde o momento que
nascemos eles estão presentes. Na maternidade, muitas tesouras nos deram boas
vindas e muitas agulhas fecharam o estrago que fizemos em algum corpo. Depois,
o tecido macio que nos cobriu, substituindo por poucos momentos o aconchego da
mãe.
Na infância ainda, na forma de trabalho, a presença de
agulhas e linhas. Menina a ajudar a mãe a bordar belos desenhos em malhas, em
troca de alguns trocados. Tardes maravilhosas, onde mãozinhas brancas criavam,
ponto por ponto, figuras indefinidas como triângulos abertos, ruas de ponto V a
chegar a lugar nenhum. Também bordava um universo concreto com flores e casas,
lagos e jardins, para a alegria de quem vestisse aquelas roupas coloridas. A
blusa lisa tinha um valor menor, sendo necessário preenchê-la, pois o vazio não
consegue conviver consigo mesmo.
Na vida adulta, agulhas, linhas e tecidos sempre me
retribuíram o valor que lhes dei, seja com sua beleza na forma de panos de
prato bordados ou com lindas barras de tecido colorido e almofadas.
Busquei também um trabalho mais elaborado, ao me aprimorar na
união de retalhos, pedacinho por pedacinho de tecido, unido um ao outro,
ampliando seu tamanho e sua necessidade, retalhos multicoloridos que me lembram
tapetes de várias culturas.
Cada pedaço une a criança da infância, da adolescência e da
vida adulta, mostrando que o ser humano não é feito de um pedaço só, mas do
entrelaçamento das partes.
Agulha, linha e tecido, um trio inseparável, como um abraço
de três irmãos, que me levam de volta à infância nos braços de minha mãe.
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