LAVA-PÉS
Por Marlova Mendes
Estou aprendendo a escrever,
fragilizada com essa nova experiência, um pouco receosa em me expor, em
descortinar meus sentimentos! É preciso ser verdadeiro, romper com a vergonha, desconsiderar
as culpas e estar preparado - e muito - para sentir as dores da ausência e,
paradoxalmente, a alegria das lembranças.
É essa a percepção que tenho da
escrita nesses meus primeiros passos.
Para exemplificar, já que estamos
em Semana Santa, lembrei de uma passagem bíblica na qual Jesus lava os pés dos
apóstolos, demonstrando através desse gesto um ato de humildade. Na época de
Jesus, como as pessoas usavam sandálias ou andavam de pés descalços, era comum que
tivessem os pés lavados pelas esposas ou escravos.
Quando eu era criança costumava lavar
os pés do meu pai, uma lembrança que é muito nítida em minha mente. Pegava uma
bacia de alumínio, colocava água quente e, se recordo bem, era com a água pura
que esfregava seus pés, sem sabonete, profundo gesto de carinho pelo qual sou
abençoada em lembrar.
Tenho os pés parecidos com os
dele, meio chato e largo, um pouco dele em mim, palpável e concreto. Sinto
agora aquele carinho, minhas mãos cobrindo seus pés com água, seus tornozelos,
as canelas finas, depois a toalha secando...não era um gesto de humildade como
o fez Jesus Cristo lavando os pés dos apóstolos, mas um ato corriqueiro, um
momento de repouso para meu pai depois de um dia de trabalho.
Era comum fazer aquilo, mas
somente agora percebo a beleza daqueles momentos. Um gesto nobre, que representava
o mais profundo sentimento de gratidão pela oportunidade de me fazer presente
na sua vida, de tocar a sua pele, de sentir a sua presença.
Que saudade pai, jamais imaginei
sentir tanta falta de lavar seus pés! É, quantas surpresas a vida nos reserva,
que universo de emoções, sementes jogadas no tempo que agora frutificam!
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